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O Purgatório


1) O amor de Deus, num cristão, pode coexistir com tendências desregradas e pecados leves. Há em todo indivíduo humano um lastro de desordem: egoísmo, vaidade, amor próprio, covardia, negligência, moleza...

2) O pecado deixa na alma, metaforicamente falando, uma cicatriz, uma ferrugem, que dificulta-lhe a prática do bem. Com efeito, o pecado implica sempre numa desordem. Quando, após o pecado, o pecador se arrepende e pede perdão a Deus, o Pai do Céu perdoa, mas o amor do pecador arrependido, por mais genuíno e leal que seja, pode não ser suficiente para extinguir todo resquício de amor desregrado e egoísta existente na alma. O pecador arrependido recebe o perdão do seu pecado, mas ainda deve se libertar da desordem deixada pelo pecado em sua alma.

A culpa é perdoada, sim. Mas a Escritura mostra que, mesmo depois de perdoada, o Senhor Deus exige satisfação ou reparação da ordem violada pelo pecado. Como analogia, vejamos o exemplo: Quem rouba um relógio, pode pedir e receber o perdão do respectivo proprietário, mas este exigirá que a ordem seja restaurada ou que o relógio volte ao seu dono.

A satisfação ou reparação não é um castigo imposto por Deus; é, antes de tudo, um auxílio medicinal; e também uma exigência do amor do cristão a Deus, amor este que, estando debilitado, pode ser corroborado e purificado.

Para extirpar a raiz do pecado na alma, deve-se exercitar mais intensamente o amor de Deus. O estímulo do amor de Deus se realiza mediante a satisfação ou atos de penitência que despertem e fortaleçam este amor no íntimo do cristão.

Também os pecados meramente internos (de pensamento e desejo) alimentam ou suscitam desordem interna no pecador, de modo que este precisa de restaurar ou introduzir a ordem em seu íntimo, mediante atos de penitência ou renúncia. EX: Davi, culpado de homicídio e adultério, foi agraciado ao reconhecer o delito; não abstante, teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf 2Sm 12,13)

3) O homem é responsável pela desordem que o seu pecado acarreta para o próximo e para o mundo. As palavras e ações de um homem tem, frequentemente, dimensões muito amplas, cujos efeitos podem continuar atuantes até mesmo depois da morte do indivíduo.

4) A justa satisfação poderá ser feita aqui mesmo na Terra, quando o penitente se empenha em se livrar de suas más tendências purificando o seu amor por Deus. Se não consegue nesta pregrinação, compreende-se que deverá fazê-lo numa vida póstuma antes de entrar na visão face a face de Deus.

Nesta hora haverá uma tomada de consciência do desperdício e esbanjamento do amor de Deus, que o cercou durante toda a sua vida, e se arrependerá. Será doloroso verificar que, por sua culpa, o encontro marcado com Deus após a morte ( momento em que os fiéis mais têm fome e sede de Deus) terá que ser adiado por causa de sua indefinição quando estava na vida terrena.

É devagar ou lentamente que o homem se torna, segundo todas as dimensões do seu ser, aquilo que ele já é no núcleo de sua personalidade. Em outros termos: uma decisão generosamente abraçada pela vontade do homem não costuma penetrar e mover instantaneamente todas as camadas da personalidade; ela muitas vezes encontra, no fundo da consciência, ou também no inconsciente do indivíduo, uma certa resistência mais ou menos tenaz, resistência essa que provém de hábitos passados do sujeito. É essa resistência que deve ser vencida, de modo a exigir da alma o empenho cada vez mais enérgico do seu amor, afim de que este possa penetrar em toda a respectiva personalidade.

Fala-se do fogo do purgatório; todavia, isso não é senão uma metáfora, para designar o sofrimento decorrente do adiamento da visão face a face.

Paradoxalmente, o purgatório é também um estágio de vida cumulado de alegria... Com efeito, esta jorra da consciência que a alma tem, de que pertence ao amor de Deus de modo irreversível. Ela sabe que é o amor que a purifica e que nela cresce, a fim de poder penetrá-la por completo. Deve-se mesmo dizer que a alma no purgatório não deseja evitar este estado, pois reconhece que o mesmo é um dom da misericórdia divina, sem o qual não poderia atingir a sua consumação.

Retirado do livro "Católicos Perguntam" de D. Estevão Bittencourt.