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            H@ VIDA DEPOIS DOS 40

...com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Aroeira

Ninguém sabia a razão do apelido, talvez só ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro legítimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas mãos calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se poderia imaginar uma fábrica de móveis. Nada disso, era apenas um barracão abandonado e lá num canto cuidado - o único lugar efetivamente cuidado do barracão, aquelas tralhas bem antiquadas, embora os equipamentos de mão como serrote, martelo, arco de pua e outros estivessem sempre limpos e brilhantes que dava gosto ver. Juvêncio o dono de tudo, desde o barracão até as tachinhas de aço, - diversas vezes oferecera a velha marcenaria ao Aroeira. Mas que nada... ele dava um baita de um sorriso banguela e dizia que não precisava coisa alguma... só que o deixassem trabalhar na fabricação e no conserto das carteiras da escola onde seus netos estudavam. Na verdade ali estudaram seus nove filhos e até sua mulher - dona Chica - fizera Mobral e se alfabetizara depois de idosa. Aroeira pregava seus pregos, apertava seus parafusos, serrava suas peças de madeira, montava as carteiras e as entregava no grupo escolar. Dinheiro nunca quis, se contentava com o muito obrigado do diretor, o professor Vitalino Cabral. Bastava o salário mínimo da aposentadoria que o Mastroiani da farmácia havia conseguido para ele com seu amigo do escritório de advocacia - o único do vilarejo. O dr. Mendes não se fizera de rogado ao pedido do amigo farmacêutico, afinal suas tres meninas haviam feito intensivo uso das carteiras fabricadas pelo velho Aroeira. E olha que foram muitos anos somados de escola. Uma era arquiteta, outra professora e a terceira jornalista na capital. Bem, mas isso nem vem tanto ao caso. O foco aqui é o Aroeira. E para encurar a história, motivo desses garranchos, a última carteira em fabricação não chegou a ser concluída. Aroeira ali rígido, sentado na carteira sem acabamento, parecia experimentá-la com aprovação. Jorge, seu neto de 8 anos ali ao seu lado chamava-o com insistência. Vovô! Vovô! Acorda vovô! Mas qual... Aroeira viajava a bordo de sua última carteira... Daqui um tempo os estudantes do grupo escolar Dr Barros Varella Pessoa haverão de sentir a sua falta... Salve Aroeira - velho amigo da gente, referência respeitosa do lugar!

2 Comentários:

  • Às 31/5/08 14:35 , Blogger Camafunga disse...

    Vi que estas te aventurando pela prosa, e não era sem tempo. Li em um tempo só tudo que estava por aqui atrasado e confesso que me emocionei novamente. Deixo o comentário nesta, bela crônica que de alguma forma me reporta a um fato semalhante. Parabens amigo, não deixe nunca esta sensibilidade sem expressão, continua escrevendo sempre.
    Abraços

    Nota: obrigado pela visita no Diário, mas o espaço não é novo não, apenas estava escondido.

     
  • Às 3/6/08 02:12 , Blogger biazinha disse...

    AVISO: O endereço do meu blog mudou para: http://antessodoquemalacompanhada.blogspot.com

     

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